Uma educação para a evolução pessoal e social – Claudio Naranjo

“Respostas corretas”, especialização, estandardização, competência estreita, aquisição ávida, agressão, desapego. Sem elas, nos pareceu que a máquina social não poderia funcionar. Não devemos culpar as escolas de crueldade quando só cumpriram o que a sociedade lhes pediu. Porém a razão pela qual necessitamos de uma reforma radical da educação é que as demandas da sociedade estão mudando radicalmente. Não cabe dúvida de que as características humanas que hoje em dia se inculcam deixarão de ser funcionais. Já se tornaram inapropriadas e destrutivas. Se a educação continua sendo como é, a humanidade acabará se destruindo cedo ou tarde.” G. Leonard, Op. cit.

O tema já foi anunciado e é praticamente uma tese: já é hora de termos uma educação para o desenvolvimento humano. Acarreta também a convicção implícita de que sem uma educação para o desenvolvimento humano, dificilmente chegaremos a ter uma sociedade melhor.

Até aqui, temos vivido uma longa história de nobres propostas e revoluções encarniçadas pela mudança social que descuidavam da mudança individual e parece que já é hora que entendamos que, se queremos uma sociedade diferente, necessitamos de seres humanos mais completos: não se pode construir algo desta natureza sem os elementos apropriados.

Este é um tema que me vem interessando há muitos anos. Interesse que despertou ao começar a intuir o valor político da educação do indivíduo e, por isso, utilizo o termo “político” no grande sentido da palavra, que alude ao bem público e não ao maquiavelismo da política de poder. Pensava então que a compreensão do potencial da educação para a evolução social seria uma coisa muito fácil de transmitir a pessoas receptivas no sistema educativo, que por sua vez poderiam fazer o necessário para que a educação se tornasse mais relevante à mudança. Porém já há uns quinze anos estou me dando conta de que acontece algo muito estranho na educação: trata-se de uma instituição muito bem intencionada, uma associação em que, em cada país, falase continuamente de reformas possíveis e particularmente de currículos complementares ou alternativos, realizam-se conferências, investe-se muito dinheiro e nada fundamental se modifica, pois domina uma grande inércia institucional.

Para mim isto é trágico, como também me parece trágico que entre todos os males do mundo, este seja um quase invisível. Penso que o desenvolvimento humano é fundamental não só para conseguirmos uma sociedade viável, mas também para a felicidade do indivíduo, pois não acredito que estamos neste mundo simplesmente para sobrevivermos e penso que seria conveniente pensarmos mais em nosso planeta como em uma espécie de purgatório onde chegamos para fazer um trabalho interior: cultivar nosso espírito e abandoná-lo sendo melhores do que quando chegamos.

Até um materialista empedernido ou um agnóstico doutrinário pode reconhecer que “não só de pão vive o homem”. Porém como é possível que depois de milênios de reflexão acerca do destino humano, da felicidade que traz a virtude e da perfectibilidade de nossa condição, exista no mundo civilizado uma instituição que se chama “educativa” e que não se ocupa mais que de coisas relativamente insignificantes? Pois é evidente que em lugar de ocupar-se de ajudar às pessoas a serem boas para que assim tenhamos um bom mundo, ocupa-se de ensinar matérias que, supõe-se, vão servir em nossa vida de trabalho ou que, supõe-se, vão servir à educação de nossa mente, porém que nem sequer servem de grande coisa na preparação dos estudantes para uma vida de serviço, senão apenas para a educação de certos aspectos da mente em detrimento de outros. Mais do que nada, a educação atual serve para passar em exames e assim conseguir um lugar privilegiado no mercado de trabalho, pelo que é exato dizer que o órgão social ao qual corresponderia velar pelo desenvolvimento humano ocupa-se de irrelevâncias, esquecido de sua função – e isto, justo quando o desenvolvimento humano tornou-se sumamente urgente no estado atual do mundo.

Hoje em dia se fala de crise na educação. Por que se fala da crise? Porque os educandos jovens não querem a educação que lhes é oferecida. E, porque é isso fundamentalmente o que leva a instituição a falar de “crise”, bem se poderia dizer que o que tem lugar é uma crise de marketing, interpretada muito unilateralmente e compreendida pela metade.

Culpa-se a juventude, principalmente. Pensa-se: “Estamos em crise porque a juventude já não se interessa como antes pelos estudos”, “os jovens já não são tão sérios como em outros tempos”, “os jovens tomam drogas e por isso não são capazes de escutar as pessoas sérias que querem trazer estas matérias tão importantes para a aula”. E não se pensa que talvez seja o contrário: bem poderia ser que os jovens estejam adquirindo uma consciência mais desperta do que os docentes que foram programados para ensinar de forma tradicional e, que aos jovens basta um contato breve com a escola para dar-se conta de que não lhes interessa. Inclusive o efeito das drogas (às quais joga-se tanto a culpa nos Estados Unidos e, por eco da polícia norteamericana, no resto do mundo) tem sido principalmente o de abrir questões existenciais, dar um sentido aos jovens de que existem muitas coisas na vida que são urgentes e que em aula são ignoradas como irrelevantes. Nela os assuntos existenciais se vêem sistematicamente oprimidos por uma situação em que falta o encontro humano, o diálogo em torno do que se passa nas mentes, famílias e entorno dos alunos, aos quais se exige estar quietos em suas cadeiras e se treina a obediência.

A propósito, atualmente está provado que a inibição do impulso lúdico causa um considerável dano cerebral, pois existem sinapses que são especificamente estimuladas pelo jogo e depois se perdem. Eu penso que ir ao colégio, hoje em dia, é como comer areia – comer algo que não alimenta – quando se intui que existe outra coisa que, isto sim, seria relevante. É criminoso fazer tanta gente perder tempo, energia, anos de vida com suposições de que é isto ou aquilo que necessitam. O que se necessita é outra coisa: algo que ajude o desenvolvimento humano.

O desenvolvimento humano é muito mais que informação e, sobretudo, muito mais que o tipo de informação que agora ocupa os educadores, que não é nem sequer para a vida, senão, como dizia, para obter um papel que indique que se tem direito de entrada para o próximo curso. Ao dizê-lo não pretendo que se despreze a evolução da aprendizagem ou se deixe de lado o processo de seleção nas universidades ou no mercado de trabalho. Só quero chamar a atenção ao aberrante que se tornou a educação já que a aprendizagem se faz mais a partir da consideração das boas ou más qualificações do que a partir do interesse em aprender.

É tão difícil mudar algo na educação que, diferente de outros tempos em que eu era otimista, estou chegando a pensar que assim como se falou de um complexo militar-industrial no qual se confundem a violência consciente e a tirania do dinheiro, talvez devamos nos perguntar se a educação, com pleno conhecimento ou não, não é o braço secreto deste sistema opressor: uma instituição cúmplice do sistema econômico, que ao invés de ajudar a consciência humana e o equilíbrio da sociedade, está servindo para a perpetuação do status quo¹ e, por sua vez, hipocritamente, para a ignorância (ignorância no sentido mais profundo da palavra, que não guarda relação com a alfabetização mas com o entender o que nos acontece e o que acontece em torno a nós). Aquele que compreende a fundo o que se passa não pode deixar de comoverse e de sentir que existe uma tragédia implícita na disfunção do nosso sistema educacional. A mim, de imediato, o que percebo me leva a falar mais e mais.

A crise da educação, que não é a crise dos estudantes, manifesta um mal muito antigo, porém, pouco visível e tem seu lado positivo, pois é bom que agora o mal se faça presente. É como uma dor de ouvido que nos faz notar que devemos ir ao médico. Ainda que levemos muito tempo perpetuando uma educação obsoleta, já não se pode educar à força a geração vindoura e isso é bom. Isto lembra algo que atualmente é citado com freqüência: como a palavra “crise” no livro chinês dos oráculos (o I-Ching, em que existe um hexagrama que leva este nome e compõe-se de dois ideogramas sobrepostos, que significam “perigo” e “oportunidade”, respectivamente). Tal é a natureza da crise. Não se trata só de algo mau, mas que nela existe um potencial: o de descobrir que é necessário mudar.

Naturalmente a crise da educação não é algo isolado, mas um aspecto do funcionamento de uma sociedade em que praticamente todas as instituições estão em crise. Já reiterei o escrito há uns dez anos em “A Agonia do Patriarcado” acerca de como nossa crise não é só do capitalismo, da mentalidade industrial (como havia proposto Willis Harman anos antes) ou um assunto de exploração como propunha Marx.

A crise, então, está resultando da quebra de algo muito mais antigo – um velhíssimo sistema que foi durante algum tempo funcional -, porém que se tornou perigosamente obsoleto. Podemos chamá-lo o sistema patriarcal ou o sistema de autoridade patriarcal – um sistema eminentemente hierárquico – a diferença do que poderia ser um sistema heterárquico como o que algumas empresas estão começando a explorar, distribuindo a autoridade de tal modo que distintos departamentos a exercem, com respeito a coisas distintas, em uma rede mais horizontal.

Meu trabalho sempre foi inspirado por esta visão, que me ocorreu quando era jovem tanto através de um chileno, um homem de conhecimento que havia alcançado “o equilíbrio dos três” em si mesmo, como através de Gurdjieff, que falava de uma falta de integração entre nossos três cérebros e, hoje em dia, não posso deixar de sentir que convém ter presente que nossa problemática educação é essencialmente uma educação patriarcal, o que implica não só que está a serviço de um implícito autoritarismo – que perverte nossas intenções democráticas – e implica em uma tirania do racional sobre o afetivo e o instintivo.

A aspiração de harmonizar e equilibrar as partes intelectual, emocional e instintiva de nossa natureza recebe hoje em dia ampla aceitação, e talvez seja isto o que principalmente se quer dizer ao falar de um programa holístico. A idéia de integrar as instâncias psíquicas freudianas, por outro lado, não é menos relevante ao ideal de transformar nossa tirania interior em uma heterarquia trifocal, e hoje em dia se vê apoiada por terapias derivadas da psicanálise como, por exemplo, e notavelmente, a Análise Transacional, apesar de sua nomenclatura um pouco diferente – pai, criança e adulto. Ainda que a noção de um equilíbrio interno de subpersonalidades, relacionadas com o pai, com a mãe e com o filho, seja algo familiar para muitos psicoterapeutas que observam o processo de cura, não só recebeu pouca atenção até agora, mas não foi considerada como propósito explícito da educação ou da terapia. Creio que é, não obstante, uma idéia fecunda.

Dizia que a educação patriarcal, que é que conhecemos desde sempre, é uma educação predominantemente intelectual em que os demais aspectos do ser humano são desprezados. É este claramente o caso da função materna interior, que tem a haver com este cérebro límbico, ligado ao amor, que compartilhamos com nossos antepassados mamíferos. É pouco dizer que esta função se vê muito descuidada, pois hoje em dia sabemos que a forma como a medicina dispôs nossa entrada no mundo, começando pelo próprio nascimento (desnecessariamente traumático em uma medida que se desconhece) e seguindo pelo período de aleitamento (em que não se respeita suficientemente o estabelecimento do vínculo natural entre a mãe e o filho), causa danos ao sistema subcortical. A forma tradicional e estabelecida de criação acarreta uma grande insensibilidade e a escola vem a arrematar esta postergação do afetivo, pois, nada necessitaríamos tanto como uma educação afetiva ou interpessoal, uma educação dessa capacidade amorosa que é a base da boa convivência e da participação na comunidade – e que tão criticamente está faltando no mundo.

Nestes momentos o Dalai Lama está recorrendo ao mundo dizendo em palavras muito comoventes – porque são palavras muito simples, mas também muito profundamente experientes, apoiadas em sua sabedoria pessoal – que precisamos ser mais bondosos, que precisamos ser pessoas melhores. E ele o diz com tanta integridade, com tanta convicção e a partir de tal clareza, que esta idéia tão simples e nada original chega a ter impacto. E isto é uma grande coisa, porque parece que por atender a muitas coisas complicadas, estamos desatendendo algo tão simples. Porém para que possamos sobreviver à atual crise do mundo depende muito de que alcancemos uma dose um pouco maior de benevolência, um nível mais apreciável de compaixão e simples bondade. Sem essa bondade, toda a informação técnica possível não vai muito longe.

A recuperação da qualidade amorosa tem muito a ver com a psicoterapia, necessita-se de uma reeducação emocional e por isto precisamos de algo que a educação atualmente rechaça: os educadores não querem ouvir falar de terapia, e sobre isto falarei mais adiante. Porém antes quero assinalar que também a educação necessita voltar a ocupar-se da dimensão profunda do ser humano. Esta dimensão profunda é o espiritual e originalmente a educação era para isso: as primeiras escolas em nossa cultura (e com “nossa cultura” me refiro à civilização cristã ocidental) surgiram na Idade Média ao redor das igrejas, e as primeiras universidades ao redor das catedrais. As escolas se orientavam, sobretudo, para que o indivíduo recebesse uma influência que o tornasse uma pessoa melhor, o que no cristianismo antigo se interpretava obviamente como ser um cristão melhor. Ser uma pessoa melhor, então, era ser alguém que segue um caminho de amor e busca servir à vontade de Deus enquanto combate seus excessos egoístas. Mas, com o passar do tempo, a religião foi se transformando mais e mais em algo contaminado pelo mundo, em um sistema de poder patriarcal, como todas as demais instituições. E, quando chegou o Renascimento, com as pessoas já bastante fartas dos excessos do cristianismo, surgiu uma grande fome de saber e um desejo de recuperar o nexo com o espírito das culturas greco-romanas, eclipsadas durante os séculos mais recentes. Assim surgiu o Humanismo, que foi uma grande inspiração para muitos. Houve gente como Erasmo, e antes dele, Picco de la Mirandola, Marsilio Ficcino e outros, na grande cultura florentina que inspiraram um redescobrimento da antiguidade, com o que voltamos a estudar os clássicos com o desejo de entender a sabedoria dos velhos filósofos e literatos; entender tantas coisas que sabiam os antigos e que haviam sido esquecidas ou abandonadas por uma cultura demasiado austera em seu desejo de alienar-se do mundo.

Então surgiu uma educação muito rica em que se integrava pela primeira vez o legado das duas civilizações das quais a nossa é herdeira, a judaico-cristã e a greco-romana. Porém esta educação também foi decaindo, foi se transformando em uma coisa inerte e repetitiva, em um luxo, um adorno, em algo encaminhado ao prestígio da cultura, como tipicamente na educação de um gentleman – a educação dos cavalheiros –, vaidade enfim. E assim, pouco a pouco, as pessoas chegaram a estar mais interessada em ler latim e grego do que em poder absorver a sabedoria dos antigos.

A educação se transformou novamente ao chegar a Revolução Francesa em um momento que coincidiu com o apogeu da ciência na cultura. A ciência experimental havia tido um tempo de incubação desde Bacon, e os que chegaram ao poder com a Revolução Francesa, naquele momento com uma grande capacidade de fazer coisas radicalmente diferentes, chamaram às escolas pessoas que não tinham experiência em ensinar, mas que sabiam química, sabiam paleontologia, biologia. Chamaram as pessoas da escola de Cruvier, da escola de Laplace, etc. À medida que as ciências entraram no currículo, as humanidades perderam peso. Fazia falta, até certo ponto, pois como temos dois hemisférios cerebrais, esquerdo e direito, com funções analíticas e sintéticas respectivamente, pode-se conceber como desejável um equilíbrio entre o científico e as humanidades. Porém de acordo com o espírito da cultura circundante (quer dizer, do mundo tecnológico, com sua fé no progresso científico e sua implícita equação que iguala este com o bem futuro do mundo), a ênfase se deslocou para o científico e é isto o que pedem os bancos aos governos quando financiam melhoras.

E chega logo na história da educação o momento em que se produz a separação do Estado e da Igreja: uma grande liberação em vista do fator limitante do poder eclesiástico desse momento, porém também uma perda agudamente descrita com uma frase inglesa, para a qual falta um equivalente em outras línguas. Fala-se em inglês de “Jogar fora a criança junto com a água do banho”. Assim como ao jogar fora a água do banho pode-se descuidadamente jogar também o bebê (“Throwing out the baby with the bath water”). Algo assim ocorreu com a educação: a idéia de espiritualidade estava tão unida através dos séculos com a idéia de espiritualidade própria da igreja cristã, que não se concebia outra educação espiritual que não fosse a das antigas classes de religião.

Porém esta idéia não é correta. Temos à nossa disposição um vasto legado espiritual procedente de todos os tempos e lugares e, em certa ocasião ouvi o bispo Myers – a quem conheci de perto – dizer o seguinte: “Não podemos nos permitir menos do que nos tornarmos herdeiros do acervo cultural completo da humanidade”, e o escutei com assombro, porque nunca o havia escutado um líder cristão falar algo semelhante e isto equivale a dizer que já não se justifica que por um sectarismo limitante desconheçamos o pensamento de Lao-Tsé, Buda ou Maomé. Devemos aspirar a uma cultura universal na qual há de se destacar a mensagem dos grandes gênios espirituais, os fundadores das religiões, os grandes mensageiros, os grandes inspirados, os grandes profetas de todas as culturas, pois eles foram os máximos professores, e uma educação sensata tem que fazer muito mais do que informar sobre guerras e combates. Mais que a exaltação patriótica, necessitamos compreensão da história da cultura, e especialmente da cultura espiritual universal. E não só isso, mas uma cultura apoiada na experiência, uma cultura em que pudesse haver oficinas onde os jovens pudessem experimentar os exercícios espirituais básicos, as formas de meditação características das distintas culturas. Assim aquele que passasse por um estabelecimento educativo, sairia sentido que algo o tocou, que gostaria de investigar mais algo em especial, que algo pode servir para o seu desenvolvimento ulterior. E assim, ao sair para a vida, poderia buscar mais disso. Como nos lugares onde se elabora vinho e se oferece a oportunidade de provar vinhos de diferentes colheitas, por que não na educação? Isto poderia dar a conhecer os sabores de diferentes experiências religiosas, de distintas práticas espirituais.

Até agora isto não foi feito porque o tabu com respeito à espiritualidade não o permitiu: não se permitiu re-importar a espiritualidade de forma criativa e inovadora.

Algo semelhante, em minha opinião, ocorreu no mundo terapêutico.

Atualmente existe na escola um grande tabu ao terapêutico, um tabu que às vezes toma a forma de “não querer complicações”, “que acontece se os alunos começam a falar do que ocorre em casa e logo os pais vêm se queixar”, “seguramente alguns pais não vão gostar que se compartilhe na escola, coisas de sua vida familiar”, e todo tipo de desculpas; porém está pesando o fato de que os professores sentem que não têm a capacidade de fazer frente à caixa de Pandora que se abriria, e o temor de que o caos potencial que poderia resultar de fazer frente a este tipo de verdades interferiria com sua tarefa de instruir.

Eu acredito que o antecedente histórico deste conflito é o interesse por parte dos educadores em aprender algo da psicanálise quando esta fez sua entrada no mundo com a pretensão de haver descoberto as grandes verdades do mundo psíquico. Porém, hoje em dia sabemos que a psicanálise se excedeu muito em suas pretensões, que foi uma formulação muito dogmática e que podemos, retrospectivamente, ver que o mundo, ingenuamente, aceitou esse dogmatismo e logo se desiludiu. Houve experiências radicais, como por exemplo, Summerhill, de A. S. Neill – reichiano entusiasta que levou até níveis pouco conhecidos a permissividade. Porém só com permissividade e idéias freudianas não se chega muito longe. A educação é algo mais complexo e eu acredito que os educadores tiveram bom senso ao estabelecer uma distância com respeito a uma possível invasão por parte da autoridade psicanalítica. Porque a psicanálise é um sistema muito autoritário, como uma igreja que se move sobre uma base de fé. Isto está se tornando plenamente visível só agora quando esta escola, que era um bloco monolítico, desmembrou-se em muitas e o grau de discrepância entre os ramos ou variedades da psicanálise atual é tal que já não se pode dizer que nenhuma das idéias fundamentais características (como o instinto de morte ou o complexo de Édipo) tenha sobrevivido em termos de aceitação generalizada.

Houve outros intentos de trazer a psicoterapia para a escola na década de sessenta e eu fui testemunha disso nos Estados Unidos porque me tocou fazer parte desse movimento humanista. Houve entusiastas que levaram os grupos de encontro rogerianos ou o “sensitivity training”, às escolas, porém os resultados tampouco foram convincentes. Abriam-se mais problemas do que se solucionava, e algumas pessoas interessavam-se muito, enquanto outras ficavam feridas ou se mostravam antagônicas.

Eu diria que estes intentos de trazer o psicológico de forma prematura para a educação, produziram uma reação de decepção, desconfiança e rejeição frente a novos intentos. Agora temos melhores meios e recursos, todavia não chegaram aos educadores, nem sequer às universidades, porque estas chegam geralmente tarde e existem mais coisas que são descobertas fora da universidade do que dentro dela. Um dos meus professores dizia, Eduardo Cruz Coke, um homem muito inspirado que ensinava bioquímica na escola de medicina e também era um político chileno: “Quando se descobrir um remédio contra o câncer, seguramente não vai ser em nenhum das centenas de institutos para investigação sobre o câncer, vai se descobrir fora, nos interstícios do institucional”. Existe muita verdade nisto, e na psicologia já se confirmou, pois o mundo acadêmico é o último que se inteirou dos aportes para o desenvolvimento humano que verdadeiramente valem a pena. Também porque o mundo acadêmico sofre as perversões do mundo patriarcal. Ler Freud ultimamente – para mim, que fui um dia um freudiano fervoroso, já que minha primeira formação foi psicanalítica, antes de passar para a gestalt e outras coisas – me faz sentir uma combinação de admiração e vergonha, porque em sua mania teórica existe uma grande desconexão do óbvio.

O cientificismo patriarcal de nosso meio acadêmico me recorda o famoso chiste do alemão que tinha uma forma muito sistemática e extremamente rápida de aprender idiomas. Com seu marcado sotaque alemão explicava o método a um amigo: “Em primeiro lugar, um dia para o verbo; depois, um dia para o substantivo; o terceiro dia para o adjetivo e o quarto para as preposições, conjunções e interjeições. E, por último, vários dias dedicados exclusivamente ao vocabulário: muito, muito vocabulário, para metê-lo todo – e apontando a própria cabeça – na bunda”.

O inconsciente dogmatismo que nos faz rir nesta personificação de um intelectualismo rígido não difere em essência do que contamina hoje a psicologia oficial: fala, – como Freud, apesar do seu notável legado – com a certeza própria de quem se sente dono da verdade e esta mesma certeza lhe permite proclamar erros fundamentais.

Creio, portanto, que a educação necessita superar estes dois tabus: o tabu contra o terapêutico e o tabu contra o espiritual. Isto já é um grande obstáculo. Porém ainda que se superem estes tabus, resta um outro obstáculo: basta que se faça presente o ideal de uma educação holística para alguém que trabalhe na burocracia da educação para que nos diga de uma ou outra forma: “Mas, de onde vamos tirar o dinheiro para uma reforma tão fundamental?”

Porque se precisamos ter uma educação orientada ao desenvolvimento humano, deveremos passar do monopólio do intelecto para uma pedagogia muito econômica no tocante à teoria; uma educação muito cuidadosa para evitar a redundância, que se apóie dentro do possível nos ordenadores ou no audiovisual para não desperdiçar os mestres incumbindo-lhes, como hoje se faz, uma função quase mecânica. Os mestres precisariam desenvolver uma função propriamente humana da educação interpessoal e a ajuda ao desenvolvimento das comunidades (funções apenas esboçadas pela atual noção de uma educação dos valores, apesar das boas intenções que esta apresenta). E a proposta de nos encaminharmos para uma educação verdadeiramente mais relevante para a vida teria que privilegiar o autoconhecimento, o que significaria, junto ao propósito de uma educação para uma convivência feliz, uma reeducação importante dos educadores. Pois não devemos nos enganar: o autoconhecimento é algo a que rendemos homenagem só de palavras. Já que nos consideramos herdeiros do oráculo de Delfos, de Sócrates e do resto dos filósofos antigos, todos estamos de acordo que a preocupação exclusiva pelo conhecimento do mundo externo no início da filosofia foi superada quando o homem, capaz de auto-reflexão, começou a interessar-se pelo conhecimento de si mesmo. Porém, como se toma em conta este alto ideal do autoconhecimento na educação que se oferece atualmente? Nem sequer quando se oferece um ramo designado como “psicologia” trata-se em realidade de uma disciplina de autoconhecimento, mas de uma exposição de várias teorias dos condutistas, da psicologia dinâmica, o construtivismo e outras escolas; porém não uma psicologia viva que ajude os alunos a se enfrentarem com sua realidade.

E, não obstante, é possível incorporar o autoconhecimento ao currículo; e à objeção de que complementar a atual formação de profissionais seria muito custoso, posso responder – e isto é o mais importante que posso dizer – que me consta que não é assim. Sei muito bem que se pode fazer de forma econômica, porque comprovei várias vezes que aquilo que falta nos atuais programas de formação de professores pode ser concentrado em um currículo suplementar de autoconhecimento, reeducação interpessoal e cultura espiritual que não requer mais que uns dez dias ao ano, em três módulos sucessivos.

Por que o digo com tanta segurança? Não porque tenha feito o experimento com um grupo homogêneo de educadores, mas por haver feito algo muito semelhante com terapeutas. E desenvolvi uma maneira de ensinar os terapeutas – em formação ou já formados – a servir mais eficientemente, através de uma aprendizagem que não é somente técnica, mas que se apóia principalmente em experiências pessoais relevantes – começando pela compreensão de si mesmos -, que é o fundamento indispensável para compreender aos demais e também uma das bases para desenvolver um interesse benévolo pelos demais.

Muitos educadores têm vindo aos meus cursos e todos saem sentindo que isto é o que a educação necessita: uma injeção espiritual universalista e não-dogmática que inclua práticas concretas que sirvam ao cultivo da mente profunda – começando pelo cultivo da atenção – e um processo de autoconhecimento guiado que leve não só a mudanças de conduta, mas também a esta transformação mais profunda que é a essência da maturidade propriamente humana.

Talvez haja quem se pergunte qual foi o segredo? E eu o explicarei em breve: que se possa conseguir um profundo impacto transformador e humanizador em tão curtas intervenções deve-se em parte à existência de recursos até agora desconhecidos (como a psicologia dos eneatipos) ou não aproveitados (como a meditação ou a terapia gestáltica); em parte a recursos novos (como certo tipo de teatro terapêutico que se apóia na psicologia dos eneatipos ou em nosso laboratório de psicoterapia integrativa); assim com também parcialmente à organização de tais recursos em um todo cujo efeito vai mais além da soma de suas partes. Tem sido, até certo ponto, o resultado da evolução de um processo vivo e a crescente experiência, tanto minha quanto das pessoas que têm colaborado comigo como docentes.

Seria longo descrever o mosaico que integra o programa de autoconhecimento e reeducação interpessoal que já há uns doze anos venho realizando em forma de encontros fechados em três módulos anuais consecutivos. Basta dizer que tem sido descrito como um processo de humanização e abertura para o amor, e que, de outro ponto de vista, bem poderia ser descrito como um “moinho de moer egos” pois se inspira na visão de um caminho espiritual como um despertar, através da consciência do ego, para a consciência do ser e se implementa através de um processo grupal guiado de insight (interpessoal e intrapessoal), confrontação da própria personalidade, cultivo da neutralidade e inibição voluntária das necessidades neuróticas (os pecados ou obstáculos das vias tradicionais).

A parte teórica que complementa a combinação de trabalho meditativo e terapêutico no programa compreende, entre outros aspectos, a aplicação do eneagrama à personalidade – herança de Oscar Ichazo que fui refinando no decorrer dos últimos trinta anos e que se faz fortemente presente na mente dos participantes como mapa de trabalho aplicado a diversas circunstâncias – e se serve de uma série de elementos como exercícios terapêuticos interpessoais, teatro, vida em comunidade e trabalho psicocorporal.

A influência fundamental através da evolução de minha atividade tem sido a de Gurdjieff, que destacava o trabalho em todos os níveis (ou centros): a ação, a emoção e o intelecto – assim como o cultivo da atenção: o estar presente e desperto aqui e agora. Foi natural, portanto, que o utilizasse para o aspecto motriz os “movimentos” criados por ele mesmo, Gurdjieff. Deixeios, não obstante, pouco depois da chegada à Califórnia do mestre taoísta Ch’u Fang Chu, de Taiwan, cujo alto nível de competência no Tai Chi e práticas associadas quis aproveitar. Depois de sua morte, contei com a colaboração de Gerda Alexander (originadora da Eutonia), de Graciela Figueroa (bailarina e mestra de Rio Aberto) e outros.

O mais relevante, não obstante, é que, assim como os aparatos eletrônicos que com os anos vão se tornando cada vez menores e mais eficientes, este programa começou com a duração de três meses (espaçados em três anos) e se reduziu a três reuniões anuais de dez dias precedidas por um programa introdutório de cinco – tornando-se cada vez mais potente em seus resultados, tanto assim que na Espanha, comentou-se a influência favorável do programa SAT (Seekers After Truth – Buscadores da Verdade) em nível de competência profissional do país.

Na Espanha, como no Brasil, a lei de educação introduziu o conceito de “transversalidades” em referência a uma educação ética orientada para valores universais que se espera que os professores possam repartir através da forma em que põem em prática o currículo tradicional.

Magnífica concepção, na verdade – que reflete a intuição de que a educação se faz através de um contágio pessoal de sabedoria e amor em parte espontâneo. Na prática, não obstante, só quem encarna os valores sabe aproveitar as circunstâncias para inculcá-los; e, para chegar a encarná-los, não basta essa combinação de instrução e sermão que se chama “educação dos valores”.

Para chegar efetivamente a ser mais solidário ou generoso, por exemplo, não basta albergar a convicção de que a solidariedade ou a generosidade são importantes, e por isso a mera exortação não vai muito longe e a inspiração que se pode transmitir através de razões ou belas palavras é limitada. Assim como a vida procede só da vida, a consciência só pode ser despertada pela consciência. Necessita-se, portanto, de um terceiro elemento entre os ramos do currículo clássico e dessa educação nos valores que se pretende levar a cabo através das transversalidades: a transformação do educador – para o que é necessário que atravesse o processo de desidentificação de seus condicionamentos infantis (o “ego”) e libere seu ser essencial.

O mais importante que posso abordar, no momento, é a notícia de que isto pode ser feito de forma relativamente breve e econômica – pois o digo por trás de uma dúzia de anos em que comprovei que a maioria das pessoas que passam por nossos cursos não só saem com maior capacidade de ajudar os outros, mas sentindo-se em um nível de vida diferente.

Aos setenta anos de idade, estou naturalmente em retirada e começo a delegar meu trabalho para meus discípulos. Há anos venho sentindo a satisfação reiterada de poder ajudar efetivamente a muitos e sentir-me banhado em sua gratidão, justo no momento em que sinto que o programa SAT, refinado de ano em ano, chega à condição de um fruto maduro, parece-me como se, desprendendo-se da árvore onde cresceu, quisesse cair em um terreno diferente do de sua origem.

Alegra-me pensar que a profunda experiência de transformação que serviu aos terapeutas para um melhor desempenho de seu ofício possa algum dia servir também aos educadores e que, através disso, sirva igualmente para transpassar ou transformar as limitações de um sistema implicitamente opressor que, perpetuando nossa ignorância fundamental, milita contra a saúde de nossas relações.

 

NOTAS

1 A idéia de que a função principal do sistema educativo seja o de reproduzir o sistema social já foi formulada por Pierre Bourdieu e outros, décadas atrás.

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